2 de ago de 2011

Onde fica o meio termo?

São 23:44 de 02/08.
Estou assistindo A Liga, na Band. Daí apareceu a cena de um projeto social no Capão Redondo, que como tantos outros, vem trazer uma brechinha que seja pras crianças e jovens ecaparem da marginalidade. Isso é ótimo, é muito bom, de verdade.
Nesses espaços eles aprendem uma profissão, tem atividades musicais, esportivas, línguas e toda uma sorte de coisas.
Daí quando apareceu essa cena específica, virei pra minha mãe e falei: sabe o que me deixa bolada? Eu nunca fui criança carente, mas também num sou rica, daí vejo na televisão um monte de criança que num tem saneamento básico tocando violino, e só porque meu esgoto vai pro lugar certo (em termos, mas isso é outra questão), se eu chegasse em qualquer comunidade perto de casa, iam dizer que eu não posso participar dos projetos devido a minha renda familiar.
Sou bolsista do Prouni. Nunca morei em favela. Mas graças a muito esforço dos meus pais. Não que seja melhor que ninguém que mora em favela, mas se fosse o melhor ambiente do mundo, não precisaria de projeto social, né. A vida inteira moramos de aluguel, pagamos todos os impostos e taxas que você normalmente não paga em favela (então mesmo que você tenha um emprego melhor e receba mais dinheiro, no final das contas, o seu poder aquisitivo é igual, ou até menor que algum morador de favela. Meus pais se separaram quando eu tinha 3 anos. Eu estudei em escola particular todo o ginásio. Graças a isso consegui minha bolsa do Prouni, a escola pública fundamental, não sei hoje, mas era uma piada... (tenho suspeitas de que num tá muito diferente, mas já não temos a aprovação automática, então...). Como já disse, nós pagamos aluguel a vida inteira, e o jeito que meus pais deram pra pagar minha escola e não precisar morar nas chamadas comunidades (acho muita hipocrizia politicamente correta falar assim, mas) era se aturar, então morávamos todos na mesma casa, pagar um aluguel, uma luz e um todos esses bláblablás. Meu pai era estofador, minha mãe sempre foi costureira, mas meu pai ficou doente, ela virou jornaleira (dessas de banca) e diarista, eu fui pra escola pública... Ainda assim eu não podia participar da maioria dos projetos sociais, não era faveladinha (juro que num é perjorativo, é carinhoso, como quando eu falo afroneguinha (esse eu aprendi com o Hélio de la Peña, do Casseta), acho que preto é lápis de cor, e negro tá na mesma faixa do comunidade da hipocrizia politicamente correta, então pra mim é afroneguinha.
O que eu pude fazer estudando em escoa pública foram os pré vestibulares comunitários, mas como eu encarei as Greves Garotinho de 2002 e 2003, serviram mais como um reforço escolar.
Minha mãe passa roupa na casa de uma moça que a filha dela também é bolsista, mas eu tenho direito a meia passagem e ela não, por causa da renda do pai (eu nem sabia que tinha essa restrição, nessa conversa que eu tive com a minha mãe que eu fui saber...). O fato de a mãe dela pagar a minha pra passar a roupa não me faz mais carente que ela, eu ela muito mais rica que eu. Vai saber se a mulher tem um problema muito grave de coluna e a que custas paga a minha mãe. -Ah, mais por que ela num passa pra ajudar a mãe? Vai saber se ela num é como eu que trabalha e estuda e nm sobra tempo pra nada...
Daí eu vejo meninas no Luciano Huck que nunca entraram num shopping pra fazer compras, mas têm uma casa pra chamar de delas, delas de verdade pra que ele possa reformar, tocam violino e violoncelo por causa do projeto, porque moravam na comunidade, e eu, só porque comi meia dúzia de Mc Lanche Feliz na infância, e morava num apartamento alugado (e o que normalmente é destinado ao zelador do prédio, diga-se de passagem) não estava dentro do perfil pra participar das atividades.
Tive direito à dignindade, sim, posso dizer até que tive certos luxos como tv no quarto, por exemplo, mas parava aí... Meus pais já ralaram pra caramba pra me dar o que deram, se eu fosse apurrinhar com cada oficina que se dá nesses projetos, que seria necessário que pagassem por fora, ia ser sacanagem...

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